sexta-feira, 26 de junho de 2009

água nos olhos, parte dez

- você tá muito bonita, adrielly.
quem entraria com ela era o seu tio, na falta de um pai há muito ausente que apenas deixara uma aposentadoria. adrielly lhe sorriu, nervosa. os cabelos negros se intercalavam com flores brancas e naturais. quis deixá-los soltos, a cobrir as costas morenas à mostra. apertava os caules, nervosa, das rosas vermelhas em forma de buquê que trazia em suas mãos. seu peito arfava, e era tanta felicidade dentro dela que achava que explodiria. o carro parecia andar muito lentamente, e os ponteiros do relógio do seu tio pareciam zombar de sua felicidade. lá fora, o mundo apenas passava sem que ela prestasse atenção em qualquer imagem, apenas na sua própria dando os primeiros passos de seu sonho realizado. mal percebeu quando o carrou parou diante da imponente igreja que se erguia como um monumento de promessas e juras infindas. o motorista lhe abriu a porta, e ela esticou as pernas levemente e saiu com delicadeza. seu tio disse-lhe que ia fumar um cigarro para lá, pois não queria estragar seu perfume. ela consentiu, silenciosa. não queria falar nada, pois tinha medo que qualquer palavra ou ação imprevisível pudesse estragar tal momento tão esperado.
viu-se sozinha na escada da igreja. repentinamente, sentiu mãos frias tamparem seus olhos.
- o que é? tio, você vai estargar minha maquiagem.
e a voz no seu ouvido, baixa como um sussurrar de cobra cascavel, apavorou-a.
- não sou seu tio, doçura.
sentiu a brisa de suas palavras eriçarem os pêlos da sua nuca. agarrou aqueles dedos dominantes e tirou de seus olhos. queria comprovar, com todos seus sentidos atentos, a desgraça consumada, emudecida em seu medo mais terrível. diante dela, se portava como anos atrás, aqueles olhos verdes glaciais.
- que é que você faz aqui, caralho?
ele riu, um riso de lobo, que mais lhe parecia um uivo. só agora percebia como seus dentes amarelados pelo fumo eram pontudos.
- caralho, digo eu, doçura, como é que você se casa e nem me convida?
sentiu seu bafo de álcool e a impetuosidade daquela voz, que era vacilante e imponente ao mesmo tempo. olhou para os lados, procurando por alguém, clamando por seu tio.
- vai embora. me deixa ser feliz...
- feliz? como você acha que eu me sinto? qual é seu plano, princesa? vai colocar o nome desse babaca na nossa filha também? não, deixa eu adivinhar. aposto que você só se casou com ele porque ele tem dinheiro. certa você. mas eu duvido, ah... eu duvido... duvido que ele te fez feliz como eu.
seus olhos verdes inundavam-se em lágrimas, mas logo as limpou com as costas da mão. pegou, com suas mãos um pouco molhadas, nos braços despidos de adrielly.
- me solta, eu vou chamar meu tio.
- calma, doçura, eu só estou te lembrando como você gosta do meu toque... e seu tio... seu tio não vai acordar por muito tempo.
riu novamente.
- o que é que você fez com ele, seu animal?
- nada, calma. eu não ia apagar o velho. mas pára, pára de gritar. eu só quero conversar com você. vem aqui.
ele a puxou para perto de seu corpo. acariciava sua cintura ornamentada, afagava seus cabelos longos.
- vem, foge comigo. deixa a isabela aí. vem, vem comigo, vem, amor, vem, doçura. aqui, eu sou teu homem, só teu.
adrielly sentia aquelas mãos percorrem seu corpo, as lágrimas despencavam de seus olhos, a garganta ardia, como um nó, um nó dentro da sua alma, que arranhava sua ferida mais exposta, ainda mal cicatrizada, que ardia, sangrava, sangrava. tentou se desvenciliar, mas percebeu que quanto mais seu corpo se rebelava, ele a apertava mais contra seu corpo.
- por que você tá chorando, doçura?
sua boca tremia.
- não me machuca, por favor.
- por que diz assim? eu nunca te machuquei. você é minha menina, só minha.
ela beijou seu pescoço.
- como você tem coragem de dizer isso? você... acabou comigo... me deixa... em paz. me deixa, agora, ou eu vou gritar.
adrielly sentiu as lágrimas quentes dele molharem seu ombro. os dois soluçavam baixo, quase em harmonia, a disperdiçar lágrimas que lhes faltariam no futuro, por chorarem eternamente pelas imagens do passado.


(e se fosse um filme, filmaria adrielly ao som de 'morena dos olhos d'agua - chico buarque'.)

domingo, 10 de maio de 2009

água nos olhos, parte nove

então, quase chegava o dia esperado. adrielly riscava todos os dias do calendário pendurado em cima da sua cama, que em tempos de ir viver na casa do seu futuro marido, sentia profunda repugnância. já tinham acertado com o dono da casa, para que suspendesse o contrato de aluguel. era só ansiedade e ligava todos os dias para suas amigas, para inundar-lhes com a sua alegria e ajustar com elas para que tudo saísse conforme queria. gostava de assim, sentir seus uivos de alegria pela amiga, e pontadas de inveja muda. desde que ficara grávida, sentia-se arrasada e de má sorte, e sempre que ficava sozinha, comparava a sua vida à das amigas, caindo em desespero. uma delas fazia faculdade, a outra trabalhava e tinha um bom marido, porém desempregado, a outra era sustentada pelo pai e nada mais fazia que curtir a vida. por um tempo, se afastara delas, abandonada pela lástima, e sem querer que ouvissem seus acasos invertidos. não precisava delas para enxugar suas lágrimas. depois que isabela desmamou, começou a sair com elas, e mesmo desgostosa, esquecia-se das suas infelicidades, dos choros constantes da filha, das lembranças aterradoras, todos os finais-de-semana. porém, antes de a sorte apresentar sua tez sorridente, lhe doía essa vida sem destino, que se definia pelos berros da filha, pelo sorriso amerelado e cínico da mãe e de parceiros que nunca ligavam no dia seguinte. agora, sentia-se no topo, e não mais recebia consolos de suas amigas, mas sim espantos da guinada que sua vida dera.
mas quem mais tinha essa felicidade repleta era eliane. fazia chás para seu futuro e oficial - pela primeira vez - genro, com medo que ele escapasse antes do casamento se realizar. aceitara, pela filha, comprar umas roupas novas, pois só tinha cores cruas e desgatadas no armário. fizera as unhas, e até tornara-se menos rígida com seus alunos. cuidava de tudo que era pertinente ao casamento, principalmente quanto à igreja, e deixando claro ao padre que sua filha era virgem perante aos olhos de Deus. e agora, tinha os olhos cheios d'água ao ver a filha pela primeira vez vestida de noiva. todo rendado, com mangas três quartos, cobria os pés, o véu de tecido transparante, a pele morena contrastante com o branco virginal, flores costuradas com strass cristalizados. as amigas mexiam aqui e ali, reclamavam a altura do véu, invetavam penteados. as adrielly não podia tirar os olhos da sua própria imagem refletida no espelho, como não podia arrancar o sorriso permanente que se instalara nas suas feições suaves.
a costureira fazia as última marcações com os alfinetes, uma senhora gorducha e de roupas gastas, um pouco mal-humorada. a sua filha acompanhava, que era boa penteadeira, e elogiava-a a todo momento, como era magra e bonita, como era jovem e delicada. queria pôr umas flores brancas naturais nos seus cabelos, e ela concordava dizendo que seu amado a chamava de florzinha, e seria tão tudo bonito. isabela quieta, olhava a mãe, assustada, e brincava com pedaços de tecidos brancos, sem nem perceber.

quem menos se preocupava com tudo isso era o médico, que apenas sorria em ver a sua pequena cada vez mais feliz. apenas quis arranjar uma boa babá que lá morasse, pois não queria se preocupar em cuidar de crianças todo o tempo. comprou passagens para a lua-de-mel, para um lugar perto, pois não podia tirar licença grande. dias antes, enfiou-se eum uma sombra de dúvidas se estaria preparado para receber toda a corja, e mudar abruptamente o seu modo de vida. pudera ser tudo mais simples, e que tivesse a pequena nas horas ardentes na cama, ou nos carinhos sossegados e matinais.

terça-feira, 21 de abril de 2009

água nos olhos, parte oito

quando ainda tinha dezesseis anos, poucos e sonhadores dezesseis, adrielly passava todos os dias por uma loja de vestidos de noiva. com dezesseis, a vida parecia simples. iria se apaixonar, iria se casar, com véu e grinalda e buquê e festa com vinho à vontade, iria ter filhos, iria ser feliz. porém, deram de entortar as linhas previsíveis da vida, deram de desfazer o destino sonhado, deram de trazer-lhe o contrário doloroso. quando descobrira a gravidez indesejada, pertubada e triste, branca como uma vela, cheia de fogo e dor, foi chorar em frente à loja. olhava os vestidos, os olhos aguados, olhava o branco, a renda, florezinhas, felicidade prometida, falecida. nunca contou à ninguém. enfiou-se em uma carapaça cheia de modernidades, e passou a dizer para os outros que casamento era careta, ela era livre, sempre livre. agora, sentada na cama, sentia vontade de chorar. não mais frustração, mas um vislumbre de um sonho há muito esquecido.
- amor, quero me casar de branco, quero um buquê de rosas vermelhas.
ele sorriu e continuou a ver a televisão.
- amor, vai ser uma grande festa?
- eu pensei numa coisa pequena, só nós, sua mãe, a isinha, o padre.
- por que não seus amigos médicos, seus parentes, bastante gente, uma festona? eu sei que é caro, mas...
- não é caro, florzinha, mas eu não gosto dessa gente, eu gosto de você, só. o que é que você tem, por que esses olhos inundados?
ela beijou sua bochecha.
- é que eu sempre quis me casar.
- eu sei, florzinha. eu convido minha irmã, é minha única parente viva, só.
viu que ela continuava amuada, minguada, pequena naquela cama grande. seria seu segundo casamento, todos aqueles ditos amigos sabiam da catástrofe que fora seu primeiro, não precisava de motivo para que eles fofocassem sobre sua vida íntima.
- você compra o vestido que quiser, vai ser a noiva mais linda do mundo.
- e minhas amigas, não?
- sim, meu amor, agora vem aqui, fica calma, deita aqui, deixa eu te sentir.
adrielly se acomodou em seus braços, sorriu, serena. imaginou a felicidade da mãe, os olhinhos contentes, sinceramente contentes, desde o dia que isabela nascera. adomerceu nos braços do seu homem.

terça-feira, 17 de março de 2009

água nos olhos, parte sete

o domingo se esvaía lentamente. a mesa estava bonita, com uma toalha xadrez e jarras de leite e água quente e café, com uma jarra de flores brancas de miolo amarelo no centro. sentia-se o cheiro de pão de queijo caseiro da esquina. adrielly não conseguia parar de sorrir. estava bonita, com uma tiara de oncinha que prendia os cabelos para trás e deixava ver como irradiava. do seu lado, o médico tinha sua mão sobre a dela, as mãos firmes e ásperas que pareciam não combinar com aquela situação. no colo de uma avó cheia de falatórios, isabela brincava com seu pão de queijo. eliane olhava com avidez a todo momento o homem ao lado da sua filha, sem querer perder nenhum segundo da sua realização. queria poder chamar sua empregada em roupa uniformizada para recolher os pratos, pois parecia-lhe, aquela, uma cena irreal extraída de um script de novela. mas ela não gostava de empregadas, e não achava que eram úteis, elas quebravam e roubavam, e roubavam maridos. o que enchia seu coração dessa felicidade que parecia apenas televisiva, era o orgulho da sua filha. uma menina bonita, crescida, cheia de erros, mas merecedora de todos os troféus. fora miss duas vezes quando mais adolescente.
o médico aparecia muito nos quatro meses que se seguiram de sua última noite. além de gostar de ver os dentes amarelados da sua sogra de cabelos pintados, a menina tinha muita febre. sempre cuidara de crianças, mas tinha perdido as esperanças em ser pai novamente. ainda lhe ardia os olhos e incomodava a alma, quando ouvia aquele choro que pedia o carinho do homem, mas sentia-se bem em saber que alguma criança precisava do seu amor, e não somente da técnica. gostava muito de adrielly. para ela, quase nunca tinha tempo ruim. pensava na possibilidade de levá-la à sua casa, intimidade máxima concedida. no momento que averiguava isso, ela levantara para recolher as xícaras e dera-lhe um beijo molhado nas têmporas, acompanhado de um sorriso que parecia embalado numa música de ninar. decidira-se. dera um beijo na nenê, prestava atenção nas últimas palavras de eliane e pegava nas mãos da sua menina, querendo falar-lhe.
saíram, o quintal acimentado parecia-lhe de extremo mal-gosto.
- quer conhecer minha casa?
adrielly sentiu o coração retumbar. ele estava abrindo-lhe as portas, todas as portas, definitivamente. percorreu pelo seu corpo um arrepio sem dono nem sorte.
- claro, meu amor.
abraçou-o e transpassou os braços pela nuca. beijou a boca dele e sorriu.
- agora?
- ééé... agora?
sobressaltou-se.
- sim... por favor.
mordeu os lábios devagar e escorregou uma das mãos pelo coz da calça jeans dele. ele sorriu aquele sorriso maníaco, aquele mesmo que a fazia revirar os olhos enquanto doía-lhe a garganta.


ela não imaginaria aquilo. aquela casa poderia ser uma das fotografas em revistas de decoração e arquitetura que ela comprava para ler no banheiro. seus telhados se covertiam em cores vivas vermelhas sobre paredes paredes brancas espaçadas por grandes vidros espelhados. havia canteiros de flores e dois portões ornamentados de azul escuro. no andar de cima, uma sacada de portas azuis a esperava. seus olhos espantavam cada vez que captavam algum sonho obscuro seu. tentou não mostrar tanta surpresa. por dentro, era cuidadosamente decorada, e combinada com as mais diversas cores. sofás em tons beges, televisão de plasma que ocupadava quase uma parede lateral, quadros em tons pastéis, abajoures altos de madeira maciça. subiu as escadas delicadamente. havia porta-retratos sem fotos. poderíamos ocupar eles já, já, amor.
- é lindo, amor.
- você que é.
despiou-a carinhosamente e beijou suas partes mais recônditas e quentes, alucinou-se nas suas curvas e arrancou-lhe sorrisos de êxtase.
ela parecia triplamente extasiada por estar naquela cama, por olhar aquelas cortinas, e maravilhada pelos eletrodomésticos e estupefata pelo closet. decidiu que faria tudo que ele pedisse, com todo fervor que conseguisse. disse-lhe isso num sussuro, lambeu suas orelhas, chupou seu pênis sem cerimônia, enterrou suas unhas nas costas, ficou de quatro no ato, gritou, mesmo se só sentisse cócegas.
e enquanto ele a engolia por trás, suava e sorria, gritou antes de gozar, em um último fôlego que restava:
- vamos... nos... casar!
ela gemeu uma eternidade, e mais tarde, agradeceria à seus olhos por o fazer afogar em tanta umidade, e à sua vagina, por o fazer prisioneiro em tanto calor.

terça-feira, 3 de março de 2009

água nos olhos, parte seis

parou em alguma padaria iluminada por uma luz fraca. despiou-a com os olhos e disse em um tom confiante que esperasse por ele. adrielly desfocou o olhar para fora, talvez incomodada com tamanha segurança.
- e se eu for embora?
ele procurou os sinais em seu rosto que mostravam que aquilo fosse qualquer piada fora de hora. mesmo sem encontrar, respondeu, mostrando um sorriso de deboche.
- então vou amarrá-la.
beijou-a, apertando sua cintura fina e quebradiça com força. saiu apressado, e olhava para trás, com certo ar receoso. vendo-se sozinha, sentindo o escuro que dominava lá fora e uma neblina fraca e cinza que congelava cada resquício de desejo, lembrou-se da voz atormentadora que a procurara no início do dia. quis respirar, sair, ficar sozinha, chorar mais um pouco, deixar a dor passar, se misturar às outras dores conformadas, costurá-la à sua alma remendada. descobriu que estava trancada. pôde apenas desenhar, com os dedos, formas esquisitas nos vidros grossos. o que diria à ele? seus olhos já estavam em ponto de desaguar, novamente, quanta água havia ali? viu um vulto difuso se aproximando. deveria dizer, me leve para casa, me leve, por favor.
ele exibia um sorriso radiante quando entrou dentro do carro, o vinho já aberto, dera uma golada imensa no gargalo.
- não faço isso desde os meus dezoito anos!
ofereceu-lhe o vinho, enquanto afastava as tiras inconvenientes de vestido, alisando sua pele fresca e jovem. ela tomou-o, indiferente e quieta.
- que te acontece, dri?
- me levaria para casa?
tomou-se dele incrédula impaciência. que diabos de mulher era aquela? por que não abria logo essas pernas, por que não acabava com este jogo difícil, tal tormento sem sentido? fechou a cara, e colocou as mãos no volante, a ponto de desistir, de deixá-la, que se fodam essas moreninhas, essas mães carentes, frustradas.
- não, eu não te levaria.
digiriu até uma esquina escura, em uma arrancada ruidosa.
- vamos lá, moreninha, você está tão linda, tão perfumada... já lhe disse como gosto de seus olhos? são olhos de predadores, eu estou aqui inteiro por você... vamos lá, não vai doer nada, eu sou um cara decente, eu posso te dar todo carinho que sua carência grita.
beijava suas bochechas, seus olhos, as pontas miúdas dos dedos, enquanto falava, em quase apelo. dentro de si, o círculo se fechava, sentia-se todo homem, sentia-se todo desejo e toda vontade de devorar.
ela lhe olhava curiosa, olhares cheios d'água. ainda parada, a cona contraía-se um pouco.
- você quer muito isso? promete... que não vai me deixar? eu sou tão abandonada.
- eu sei, meu amorzinho, eu sei, vamos logo, vamos logo.
- você vai me deixar, você vai me deixar, você vai me deixar, você vai...
subira em cima dela, enfiava a sua língua por calá-la, despia-a sem pudor. tombou o banco para trás, ouvia seu gemido distante.
- não, não, doutor, não.
mordeus seus bicos pequenos, marrons, lambeu seu umbigo, a barriga lisa, gemeu baixo.
- não, não, doutor, não.
voltou a ver a cara, a cara encharcada de lágrima, os olhos dela cheios de pura água, havia tanto pranto pra ser desperdiçado!
- mas que que é? por acaso, és virgem?
riu alto, beijou-lhe a boca.
- chora, não, chora não, eu estou aqui, eu não vou fazer nada.
- eu tenho medo, medo, que você seja igual á ele.
ela nua, toda nua, um sonho, quase uma criança, seu pênis em ardência, quanta criança. ele nu, todo branco, um pouco gordo, a boca escancarada, toda a virilidade.
- eu não sou igual à ninguém, ora essa, eu amo você, eu amo a sua filha, vamos logo, abre isso.
ela gritou alto, ele teve que tapar-lhe a boca, queria concentrar-se no seu delírio, guardar de como ali era quente, era apertado, era amor. ela ainda chorava, se sabia toda molhada, tinha acabado de ouvir, amo... amo você, sua filha, olá, mamãe, você conseguiu. ela ofegava, um pouco suada, gemia baixo, as lágrimas cessaram. na sua mente, de olhos fechados, ela o via. mais novo, mais moreno, mais barbudo, nem um te amo. e depois de tanto chorar, tinha-se descobrido toda êxtase, flutuante, em águas rasas, das próprias lágrimas, de desejos frívolos, de pedidos carentes, de passados recentes. e, entre um corpo e outro, um vinho se espatifara, quase sem ruído, mas a tudo alagava, pintando com cor de sangue o que não se percebia de olhos fechados.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

água nos olhos, parte cinco

como se o acaso quisesse mostrar que, ás vezes, ele até tinha dó dos seus bonecos de pano, deu de presente à adrielly o som de um campainha distante e reconfortadora. sua mãe fora até a porta de seu quarto, sem se preocupar em consolá-la, e dissera-lhe:
- enxuga estes olhos que o homem que vai te salvar está aí!
eliane gostava de ser profética. chegara em casa, aturdida com seus alunos, um pouco mais amarelada do que o costume e cheirando fortemente à cigarro. encontrara a nenê imóvel e a filha se descabelando. não era a primeira vez que isso acontecia. ao ver o fio do telefone arrancado, entendera. ainda chegaria a hora de perguntar à ela se exigiu alguma pensão dele. mas agora, sentia compaixão pelo desespero que tomava conta de sua filha. talvez fossem cenas incontáveis de uma fita riscada, mas ainda doía na sua alma complacente de mãe.
- quem, mãe? QUEM? eu não quero ver ninguém hoje. NINGUÉM.
- o médico. ele tá na porta. e já avisei que você estava em casa.
adrielly enxugou os olhos, boquiaberta. ora, santo deus, isso é hora de me trazer o homem para casa? xingou sua mãe em pensamento, assentindo que a tal não seria nem capaz de mentir para seu próprio bem. ela estava tão interessada na fortuna que essa união esquisita podia trazer, que andara extrapolando certos limites. e agora? prendeu seus cabelos em um rabo-de-cavalo, escolhendo um vestido preto e simples, passou uma base para esconder as olheiras, perfumou-se rapidamente e vestiu umas botas que estavam para fora do armário. não importa mesmo. se for para ter um homem para fazer-lhe chorar o resto de sua vida, não importa. era melhor que todos fossem embora.
deu uma última olhadela de desgosto para a mãe, passou a mão pelos poucos cabelos da filha, que ainda via televisão, absorta e apressou-se.
- você é louco?
ela pretendia ser um pouco menos grossa, mas descobriu que naquele momento não podia controlar seu tom de voz e nem disfarçar seu nervosismo à flor da pele.
- me desculpe, tentei te ligar. mas o telefone não respondia. não liguei antes, porque estava de plantão, porém... essa noite é nossa.
ele sentira-se tão desconcertado pelo tempo que ficou lá fora, naquele vento gelado que traz pessimismo às almas desavisadas, e pelo tom de voz dela, que não fora de surpresa boa, mas de reprovação, que não reparara no estado depressivo da moça. ela o fitou com os olhos.
- essa não é uma boa noite. eu estou tão mal.
adrielly abaixou a cabeça. se bem que agora, talvez, precisasse mais de um abraço como nunca. um abraço que pudesse reacender a chama que apagara-se no seu peito. ele aproximou-se dela, aquelas mãos ásperas tocaram os seus braços finos. podia sentir como ela estava gelada, seus olhos caídos, acho que é um começo de uma gripe. mas talvez seja mal de espírito, e não de corpo.
- tudo bem, você quer algumas amostras grátis de...?
ouviu o seu suspiro decepcionado antes que terminasse a estúpida pergunta.
- desculpa, o que aconteceu? você está sempre tão linda e alegre, mesmo quando sua filha estava doente. eu saí da minha casa, a minha casa não é perto daqui, eu contava muito que pudesse vê-la.
seus lábios crisparam, queria ter a ousadia de trocar o verbo vê-la por tê-la.
- eu estou tão feia assim para você não querer me tocar mais do que nos meus braços?
sobressaltou-se, indignado com a própria falta de tato e sedução, e tomou o corpo mole nos seus braços. ela tinha um cheiro doce, muito doce; e era tão pequena que achava que poderia quebrá-la se a abraçasse demais. porém, anatomias fracas nunca significaram falta de fortaleza. sentiu como ela lhe apertava, encontrava a pélvis com seu pinto, agarrava seu ombro em um tato quase desesperado e procurava esconder-se dentro dele.
- vamos, eu sei do que você precisa.
abriu a porta do carro, quase sem se conter. em todo o caminho, desviava os olhos para as coxas às mostras entre o vestido curto e aquelas botas adolescentes. ela tinha sua mão na perna dele, como se não quisesse desgrudar de nenhuma parte sólida e com vida, temendo que assim, pudesse se expirar em sofrimento. ela olhava pela janela, acompanhava as luzes da cidade, perdia-se por devaneios, e perguntava-se se ele estava por entre aquelas ruas com aquele seu cheiro insuportável de cachaça. sobressaltou-se ao ver que paravam em frente à um motel. não era tão luxuoso quanto ela imaginou, era até mediano. observou aquele casarão informal, lembou-se daquele cheiro de lençol lavado, aquele tapete vermelho e o espelho no teto que tornava tudo tão mais enjoativo.
- não, aqui não. eu não quero. você mora sozinho?
ele engoliu em seco.
- moro.
- desculpa, motéis não me dão boa impressão.
ele pensou consigo. a mão dela apertava a sua coxa, forte agora, deixando de ter apelo emocional.
- a minha casa está suja, a filha da empregada está doente. a gente pode escolher outro lugar.
- você quer mesmo fazer sexo hoje?
disse de supetão. não sabia se seria capaz de dar o máximo de si em tal situação. era verdade que não negaria nada agora, sentia seu corpo carente, retorcido, haveria de ter alguém para esticá-lo, para dar-lhe vida. sentia necessidade, até porque suas tristezas eram acompanhadas por uma certa predisposição sexual. mas ele era o médico que sua mãe esperava que tornasse seu marido, se tinha que seguir uma vida distante da voz daquele telefonema, teria que dar tudo de si.
- a gente pode só... comprar um vinho. o que você acha?
ela sentiu o desapontamento na voz, os olhos que não paravam de desviar para as coxas, pararam em algum ponto fixo e distante. estava desconfiado. ela estava a enganar-lhe, enrolá-lo em sua linha, tricotá-lo por aquela vontade não cumprida. talvez fosse melhor deixar para lá essa coisa de perder-se em seus olhos negros e úmidos. logo que suas sensações eram acompanhadas por algum sentimento nobre, sobrava-lhe a decepção, a inferioridade diante da fêmea dominante.
- melhor eu te levar pra casa.
agitou-se dentro dela um coração inconstante, já não sabia o que fazer. respirou fundo, e aproximou a sua mão da virilha.
- espera. compra um vinho. eu gosto do seu carro. é seu... é grande. não é?
ele sorriu pela primeira vez na noite, um sorriso de lado, que mostrava apenas alguns dentes, e dava-lhe a conotação de maníaco, não pediatra. ela gostava de maníacos, e aproximou-se do seu corpo, beijando-lhe. ele sentiu aquela língua travessa, e todo o ardor que emanava de seu corpo. resolveu não dizer nada, e deixou que ela brincasse com sua língua nas orelhas e desse mordidas no seu ombro enquanto ia comprar o vinho em alguma padaria vinte e quatro horas.

(continua!)

água nos olhos, parte quatro

adrielly não queria transparecer ansiedade. mas corria os olhos pretos e sagazes ao telefone sempre que podia, esperando que ele tocasse. e atendia, em um instante, todas as operadores de telemarketing, cobranças de banco e parentes distantes. estremecia quando isabella não parava de chorar, e o telefone não parava de tocar, e tal sinfonia transformava-se em marteladas constantes em sua paciência. tinha medo que ele nunca mais fosse ligar, e que todos os seus esforços em tentar ser uma boa menina, uma menina para casar, tinha sido em vão. embora ela tenha visto alguma coisa em seus olhos. alguma coisa que dissesse à ela que queria ficar aninhado em seus braços. mas do que estou falando? talvez ninguém tenha me olhado assim. e isso fazia toda a diferença. certo dia, o telefone rangeu sua orquestra de esperança. mas a voz que atendeu do outro lado, transformou-a em desespero.
- como vai, docinho?
desligou o telefone em um clique impiedoso. quis chorar, e olhou para a sua menina. ela correspondeu o olhar, com aqueles verdes gélidos a fitá-la. que porra de olhos são esses, isabella? que porra de olhos são esses que me desgraçam. o telefone tremeu em sua mão. de novo. o martelar inconstante da proximidade de uma tempestade. o vento que sopra por trás dos cabelos e anuncia o fim do mundo.
- não desliga, docinho. eu não vou fazer nada de mal à você. como tá a nossa princesa?
os seus lábios tremiam. o seu coração dilacerava-se.
- tá bem. ela tem os seus malditos olhos.
- deixa eu ver ela, docinho. dar um dinheiro, você não quer?
- não quero nada de você. fica longe.
foi impetuosa em dizer. a sua mãe bem que queria um dinheiro. a situação tava cada vez mais difícil em casa. mas ela não podia fazer isso. ela não iria conseguir. sua garganta parecia ter-se fechado em um nó amargo.
- docinho, eu sei que você precisa. a gente pode conversar, eu sinto falta de você, você ainda tem aquele seu cheiro? e a princesa, deve ser linda, com os olhos do paizão.
desligou o telefone. arrancou o fio da parede, os olhos encharcados. aquela voz entorpecera todos os membros do seu corpo, medo acovardado e um pouco de excitação sem razão. apoiou-se na parede, tentando controlar seu desespero duplo, segurar seu choro auto-acusatório. sua filha olhava-a com interesse, os olhos grandes e assustados.
- por mim você nunca vai conhecer esse desgraçado, viu?
- gaçado, mã?
correu até o quarto e deixou-se chorar, feito uma criança que confunde uma sombra com um monstro. isabella ficou quieta, e pela primeira vez, não chorou... talvez entendesse que sua mãe precisava tanto das lágrimas como ela.


(hum, acertei no título UMA vez na minha vida, haha.)