terça-feira, 17 de março de 2009

água nos olhos, parte sete

o domingo se esvaía lentamente. a mesa estava bonita, com uma toalha xadrez e jarras de leite e água quente e café, com uma jarra de flores brancas de miolo amarelo no centro. sentia-se o cheiro de pão de queijo caseiro da esquina. adrielly não conseguia parar de sorrir. estava bonita, com uma tiara de oncinha que prendia os cabelos para trás e deixava ver como irradiava. do seu lado, o médico tinha sua mão sobre a dela, as mãos firmes e ásperas que pareciam não combinar com aquela situação. no colo de uma avó cheia de falatórios, isabela brincava com seu pão de queijo. eliane olhava com avidez a todo momento o homem ao lado da sua filha, sem querer perder nenhum segundo da sua realização. queria poder chamar sua empregada em roupa uniformizada para recolher os pratos, pois parecia-lhe, aquela, uma cena irreal extraída de um script de novela. mas ela não gostava de empregadas, e não achava que eram úteis, elas quebravam e roubavam, e roubavam maridos. o que enchia seu coração dessa felicidade que parecia apenas televisiva, era o orgulho da sua filha. uma menina bonita, crescida, cheia de erros, mas merecedora de todos os troféus. fora miss duas vezes quando mais adolescente.
o médico aparecia muito nos quatro meses que se seguiram de sua última noite. além de gostar de ver os dentes amarelados da sua sogra de cabelos pintados, a menina tinha muita febre. sempre cuidara de crianças, mas tinha perdido as esperanças em ser pai novamente. ainda lhe ardia os olhos e incomodava a alma, quando ouvia aquele choro que pedia o carinho do homem, mas sentia-se bem em saber que alguma criança precisava do seu amor, e não somente da técnica. gostava muito de adrielly. para ela, quase nunca tinha tempo ruim. pensava na possibilidade de levá-la à sua casa, intimidade máxima concedida. no momento que averiguava isso, ela levantara para recolher as xícaras e dera-lhe um beijo molhado nas têmporas, acompanhado de um sorriso que parecia embalado numa música de ninar. decidira-se. dera um beijo na nenê, prestava atenção nas últimas palavras de eliane e pegava nas mãos da sua menina, querendo falar-lhe.
saíram, o quintal acimentado parecia-lhe de extremo mal-gosto.
- quer conhecer minha casa?
adrielly sentiu o coração retumbar. ele estava abrindo-lhe as portas, todas as portas, definitivamente. percorreu pelo seu corpo um arrepio sem dono nem sorte.
- claro, meu amor.
abraçou-o e transpassou os braços pela nuca. beijou a boca dele e sorriu.
- agora?
- ééé... agora?
sobressaltou-se.
- sim... por favor.
mordeu os lábios devagar e escorregou uma das mãos pelo coz da calça jeans dele. ele sorriu aquele sorriso maníaco, aquele mesmo que a fazia revirar os olhos enquanto doía-lhe a garganta.


ela não imaginaria aquilo. aquela casa poderia ser uma das fotografas em revistas de decoração e arquitetura que ela comprava para ler no banheiro. seus telhados se covertiam em cores vivas vermelhas sobre paredes paredes brancas espaçadas por grandes vidros espelhados. havia canteiros de flores e dois portões ornamentados de azul escuro. no andar de cima, uma sacada de portas azuis a esperava. seus olhos espantavam cada vez que captavam algum sonho obscuro seu. tentou não mostrar tanta surpresa. por dentro, era cuidadosamente decorada, e combinada com as mais diversas cores. sofás em tons beges, televisão de plasma que ocupadava quase uma parede lateral, quadros em tons pastéis, abajoures altos de madeira maciça. subiu as escadas delicadamente. havia porta-retratos sem fotos. poderíamos ocupar eles já, já, amor.
- é lindo, amor.
- você que é.
despiou-a carinhosamente e beijou suas partes mais recônditas e quentes, alucinou-se nas suas curvas e arrancou-lhe sorrisos de êxtase.
ela parecia triplamente extasiada por estar naquela cama, por olhar aquelas cortinas, e maravilhada pelos eletrodomésticos e estupefata pelo closet. decidiu que faria tudo que ele pedisse, com todo fervor que conseguisse. disse-lhe isso num sussuro, lambeu suas orelhas, chupou seu pênis sem cerimônia, enterrou suas unhas nas costas, ficou de quatro no ato, gritou, mesmo se só sentisse cócegas.
e enquanto ele a engolia por trás, suava e sorria, gritou antes de gozar, em um último fôlego que restava:
- vamos... nos... casar!
ela gemeu uma eternidade, e mais tarde, agradeceria à seus olhos por o fazer afogar em tanta umidade, e à sua vagina, por o fazer prisioneiro em tanto calor.

terça-feira, 3 de março de 2009

água nos olhos, parte seis

parou em alguma padaria iluminada por uma luz fraca. despiou-a com os olhos e disse em um tom confiante que esperasse por ele. adrielly desfocou o olhar para fora, talvez incomodada com tamanha segurança.
- e se eu for embora?
ele procurou os sinais em seu rosto que mostravam que aquilo fosse qualquer piada fora de hora. mesmo sem encontrar, respondeu, mostrando um sorriso de deboche.
- então vou amarrá-la.
beijou-a, apertando sua cintura fina e quebradiça com força. saiu apressado, e olhava para trás, com certo ar receoso. vendo-se sozinha, sentindo o escuro que dominava lá fora e uma neblina fraca e cinza que congelava cada resquício de desejo, lembrou-se da voz atormentadora que a procurara no início do dia. quis respirar, sair, ficar sozinha, chorar mais um pouco, deixar a dor passar, se misturar às outras dores conformadas, costurá-la à sua alma remendada. descobriu que estava trancada. pôde apenas desenhar, com os dedos, formas esquisitas nos vidros grossos. o que diria à ele? seus olhos já estavam em ponto de desaguar, novamente, quanta água havia ali? viu um vulto difuso se aproximando. deveria dizer, me leve para casa, me leve, por favor.
ele exibia um sorriso radiante quando entrou dentro do carro, o vinho já aberto, dera uma golada imensa no gargalo.
- não faço isso desde os meus dezoito anos!
ofereceu-lhe o vinho, enquanto afastava as tiras inconvenientes de vestido, alisando sua pele fresca e jovem. ela tomou-o, indiferente e quieta.
- que te acontece, dri?
- me levaria para casa?
tomou-se dele incrédula impaciência. que diabos de mulher era aquela? por que não abria logo essas pernas, por que não acabava com este jogo difícil, tal tormento sem sentido? fechou a cara, e colocou as mãos no volante, a ponto de desistir, de deixá-la, que se fodam essas moreninhas, essas mães carentes, frustradas.
- não, eu não te levaria.
digiriu até uma esquina escura, em uma arrancada ruidosa.
- vamos lá, moreninha, você está tão linda, tão perfumada... já lhe disse como gosto de seus olhos? são olhos de predadores, eu estou aqui inteiro por você... vamos lá, não vai doer nada, eu sou um cara decente, eu posso te dar todo carinho que sua carência grita.
beijava suas bochechas, seus olhos, as pontas miúdas dos dedos, enquanto falava, em quase apelo. dentro de si, o círculo se fechava, sentia-se todo homem, sentia-se todo desejo e toda vontade de devorar.
ela lhe olhava curiosa, olhares cheios d'água. ainda parada, a cona contraía-se um pouco.
- você quer muito isso? promete... que não vai me deixar? eu sou tão abandonada.
- eu sei, meu amorzinho, eu sei, vamos logo, vamos logo.
- você vai me deixar, você vai me deixar, você vai me deixar, você vai...
subira em cima dela, enfiava a sua língua por calá-la, despia-a sem pudor. tombou o banco para trás, ouvia seu gemido distante.
- não, não, doutor, não.
mordeus seus bicos pequenos, marrons, lambeu seu umbigo, a barriga lisa, gemeu baixo.
- não, não, doutor, não.
voltou a ver a cara, a cara encharcada de lágrima, os olhos dela cheios de pura água, havia tanto pranto pra ser desperdiçado!
- mas que que é? por acaso, és virgem?
riu alto, beijou-lhe a boca.
- chora, não, chora não, eu estou aqui, eu não vou fazer nada.
- eu tenho medo, medo, que você seja igual á ele.
ela nua, toda nua, um sonho, quase uma criança, seu pênis em ardência, quanta criança. ele nu, todo branco, um pouco gordo, a boca escancarada, toda a virilidade.
- eu não sou igual à ninguém, ora essa, eu amo você, eu amo a sua filha, vamos logo, abre isso.
ela gritou alto, ele teve que tapar-lhe a boca, queria concentrar-se no seu delírio, guardar de como ali era quente, era apertado, era amor. ela ainda chorava, se sabia toda molhada, tinha acabado de ouvir, amo... amo você, sua filha, olá, mamãe, você conseguiu. ela ofegava, um pouco suada, gemia baixo, as lágrimas cessaram. na sua mente, de olhos fechados, ela o via. mais novo, mais moreno, mais barbudo, nem um te amo. e depois de tanto chorar, tinha-se descobrido toda êxtase, flutuante, em águas rasas, das próprias lágrimas, de desejos frívolos, de pedidos carentes, de passados recentes. e, entre um corpo e outro, um vinho se espatifara, quase sem ruído, mas a tudo alagava, pintando com cor de sangue o que não se percebia de olhos fechados.